Eu mandava eu mandava ladrilhar

“Se essa rua/se essa rua fosse minha/ eu mandava eu mandava ladrilhar….” Essa havia sido a última coisa que Nicole ouvira antes de seu mundo escurecer.

Era uma noite de sexta como qualquer outra, e ela voltava andando pra casa como sempre, depois de ir no bar com seus amigos do trabalho, essa era sua rotina para começar o fim de semana. Sua casa ficava em uma cidade pequena, sem um índice de criminalidade muito alto, não havia porque se preocupar, era isso que ela sempre dizia aos seus pais na volta, desde adolescente, quando quis começar a voltar andando com seus amigos pra casa.

Era isso que dizia quando se atrasava, que estava admirando a paisagem, a praia, o céu. Ela não podia dizer que estava beijando na boca pela primeira vez atrás daquele muro todo pichado, que sentia aquela língua estranha em sua boca, aquela boca encostando na sua, aquela respiração quente perto do seu rosto. Não valeu a bronca pelo atraso, mas tudo bem, pelo menos ela tentou. Ou que estava vendo um pinto pela primeira vez naquele canto escondido da praia. Ela lembra do arrepio ao tomar coragem de baixar a mão pela primeira vez e sentir. Não parecia nada com um salsichão, como ela havia lido na internet, não parecia com uma linguiça congelada, ela ia brigar com a Rafaela, mentirosa! Não parecia com nada que ela pudesse pensar, mas ela ela sabia que queria descobrir, desde que sentiu aquele arrepio diferente quando beijou seu namorado pela primeira vez, não foi um arrepio em um lugar comum, se é que você me entende.

Sua cidade era bonita, era calma, a permitia crescer, amadurecer, beijar, e até mesmo transar, e ainda assim admirar a vista. Até que, naquele dia, naquele fatídico dia, algo mudou. Nicole não bebeu demais, não comeu demais, não usou drogas demais (pelo menos naquela sexta), ela só estava voltando pra casa! Ou era o que ela pensava.

Quando desceu do ônibus no ponto de sempre e pegou a rua de casa, ela pensou ter ouvido um barulho estranho. Um barulho que não fazia parte dos barulhos de sempre. Seria um passo? Folhas mexendo? Ela não sabia exatamente, não se lembrava, se esforçava, mas sua cabeça doía. Nicole acordou assustada, com um barulho agudo, alto “pí…. Pí pí…. Pí pí…” - Ai! Como sua cabeça doía! Que luz forte branca era essa? Que barulho chato apitando nos seus ouvidos. Que dor na cabeça! - quando ela subiu suas mãos, perceber que estava cheia de fios e fitas e luzes, e sangue? Aquilo era sangue? Naquele momento, se desesperou, tentava se mexer rápido, se livrar, mas todo seu corpo latejava, sua visão estava cheia de minhoquinhas de asfalto quente, ela estava tonta.

- Calma, minha filha, calma! Nós estamos aqui. Nicole reconhecia essa voz. Mesmo embargada do choro, claro que reconhecia a voz de sua mãe.

- Eu e seu pai estamos aqui.



 

Comentários

Gugu Keller disse…
A violência é uma loteria compulsória.

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